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Entrevista |
ENTREVISTA COM A MUSICOTERAPEUTA CRISTIANE AMOROSINO
TEMA: DEFICIÊNCIA AUDITIVA
(Para ver o resumo de seu currículo clique aqui)
GAMT: Fale-nos um pouco sobre a Musicoterapia.
CRISTIANE: A Musicoterapia (MT) é uma prática científica que se utiliza do som, da música e seus elementos constitutivos em prol da promoção da saúde do ser humano. É uma profissão e como tal, proporciona uma série de técnicas e métodos para o tratamento de diversas situações que estejam interferindo na saúde do Homem como um todo. Seja ela física, orgânica ou psíquica. A MT se fortaleceu enquanto ciência na época da segunda guerra mundial com o surgimento das primeiras associações que tinham como finalidade capacitar e treinar o profissional para a MT. De lá para cá, muitos cursos de graduação se formaram pelo mundo, e no Brasil, encontramos cursos de graduação e especialização. A MT possui sua própria fundamentação teórica e assim é capaz de caminhar sozinha, não dependendo de outros profissionais para atuar. Existe um Musicoterapeuta qualificado para agir e tomar decisões.
O trabalho pode ser desenvolvido com uma equipe multi, inter e/ou trandisciplinar, ou seja cada um com seu conhecimento atua em prol da melhora geral do indivíduo, trocando informações e esclarecendo dúvidas. Esta é uma tendência que a cada dia se difunde mais , o que particularmente acho ótimo, afinal o Ser Humano não é fragmentado e sim um todo; além de ser uma oportunidade muito enriquecedora para toda a equipe que participa.
Podemos abranger desde bebes, crianças, até a 3ª idade. Desde pessoas "normais" ( auto conhecimento, estresse, etc... ) até quadros patológicos ( sindromes, epilepsia, câncer, surdez, etc...), quadros de trauma ( causados por acidentes , por exemplo ) ou coma, entre outros... Podemos atuar em escolas, consultórios, clínicas, hospitais, instituições, empresas ( RH, ou organizacional ), Ongs e laboratórios de pesquisa.
GAMT: Como musicoterapeuta, como você vê o surdo?
CRISTIANE: Como eu Musicoterapeuta vejo o surdo. Em primeiro lugar, como um ser humano cheio de potenciais latentes, aguardando um empurrão para aflorar. É por isso que valorizo e muito a estimulação precoce pois, quanto mais cedo a criança for estimulada, menor a proporção das perdas em seu desenvolvimento global. A criança geralmente é encaminhada a partir dos 2 anos de idade, isto não impede que crianças menores realizem o trabalho conosco, mas com certeza a participação e interação com os pais se faz mais presente e necessária, afinal são eles que vão nos ensinar como se dá a forma de comunicação inicial desta criança.
GAMT: Gostaríamos que você falasse um pouco sobre seu trabalho e sua pesquisa na UNAERP, com Deficiência Auditiva.
CRISTIANE: A idéia de se utilizar a MT passa como sendo acessível apenas para os ouvintes, um grande erro aqui pois, se pensarmos na propagação do som, ele pode ser percebido através das percepções sensório táteis ( uma das primeiras formas da criança se relacionar com o meio ainda no útero materno ). Acreditando nesta informação puramente física ( acústica do som ) e orgânica, sem esquecer nas implicações que estas proporcionam ao desenvolvimento psíquico da criança, é que procuro desenvolver o trabalho com surdos. No meu caso, com crianças surdas. Estas crianças ainda não desenvolveram por completo uma forma de expressão específica, permanecendo a possibilidade de se perceber e descobrir muitos meios para tal.
A falta de interesse pelo som se dá simplesmente porque os surdos não foram sensibilizados e estimulados a ouvirem o mesmo de uma forma diferente, ou seja, pela percepção sensório tátil. Uma vez que este som é percebido, a criança começa a brincar e manipular estes sons, consequentemente isto favorece uma organização interna ( pessoal ) antes desconhecida. Seu ritmo, sua respiração, equilíbrio e formação de conceitos podem ser relacionados com estas descobertas sonoras, afinal, o som passa a ter um sentido na vida destas crianças, não esquecendo que todo ser que possui vida é pulsante, é ritmo, é sonoro.
Para favorecer esta percepção, desenvolvemos em nossa pesquisa " MT e Surdez " aqui na Unaerp, um primeiro experimento no laboratório de psicoacústica para seleção dos instrumentos que mais favorecessem esta percepção. Dentre eles, estão o Surdo, o Tambor, a Tumbadora, o Tan tan, o Tambor de fendas, considerados bons instrumentos propagadores de vibração através das respostas obtidas no laboratório; além, da análise da forma, timbre, diâmetro da superfície de contato, material , freqüência, desenho da onda sonora, etc.
Com os resultados deste experimento, partimos para a prática clinica, podendo apresentar então o som às crianças de uma forma mais natural, lembrando que a criança absorve e aprende muito mais se estiver brincando ( através do lúdico ). É evidente que a questão da relação com os terapeutas e não somente com os instrumentos tem papel fundamental aqui ( ex.: sentados no tambor de fendas de costas para um dos terapeutas, quando este tocar o tambor e a criança perceber, dá um pulo ou faz uma careta, olhando para o tambor de fendas e para seus colegas do grupo como fez a terapeuta modelo ). Com o passar dos atendimentos, os instrumentos vão sendo selecionados de acordo com o grau de dificuldade de percepção sensório tátil, ou seja uma flauta doce ou a vibração da voz é muito mais difícil de ser percebida que a de um tambor. Aqui geralmente, a criança demonstra certo interesse em explorar a capacidade de produzir sons com a voz. Isto não significa que ela venha a falar como um a pessoa ouvinte, mas é claro, a necessidade de conhecer seu próprio aparelho fonoarticulatório. Suas percepções tornam-se cada vez mais aguçadas. O som já não é algo indiferente para ela e muito menos o que ela é capaz de fazer com ele.
Neste item lembro de tua pergunta se necessariamente um surdo não fala. Isto vai depender de como, quando, quanto e de que maneira ele começou a receber estímulos para tal. Se ele vai falar ou não, a resposta esta em acreditar no potencial que ele possui bem como respeitar seus limites.
O que estas experiências em MT proporcionam a criança surda, acho que já respondi, mas em minha opinião, uma interação muito maior e mais completa com o meio em que vive, apresenta possibilidades que antes a criança desconhecia, proporciona um maior conhecimento de si mesma, uma forma de reconhecer e aproveitar todo seu corpo que é e sempre foi sonoro, que o som também faz parte de sua vida, de sua existência; enfim, é ampliar os horizontes desta criança favorecendo um maior aproveitamento de suas potencialidades para que um dia possa caminhar sozinha e segura de si mesma.
Em relação aos pais, sempre obtive muito apoio e ajuda dos mesmos, até hoje não tive nenhum caso em que os pais foram omissos, Graças a Deus, pois se não temos apoio dos pais ou responsáveis, nosso trabalho torna-se limitado ao horário de atendimento e as quatro paredes do setting. Os pais ou responsáveis são nossos maiores aliados na evolução dos casos de forma positiva. Você poderá verificar os exemplos e depoimentos fornecidos a revista infomt deste semestre , lá vc também encontrará o nome de duas das crianças que atendi no ano passado ( 2001 ). Também percebo a mesma reação dos pais que tem seus filhos acompanhados por estagiárias minhas, o retorno é o mesmo e os resultados estão se apresentando de forma muito parecida, as estagiárias são 8ª etapa de MT Geise , Deliane e Inessa, da 5ª etapa de MT Denise. Se quiser conversar com elas tudo bem, apesar de Ter deixado seu tempo curtíssimo.
Enfim , para finalizar , acho que a MT com surdos é mais uma ferramenta para melhorar a qualidade de vida destas crianças.